vivendo com menos de R$ 10 milhões

Primeiro as declarações do presidente da Câmara Municipal de São Paulo de que não é possível viver com menos de cinco mil por mês. Uma semana depois, o Senado barra o imposto sobre grandes fortunas.

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Matéria no estadao.com.br de 19 de janeiro de 2010 (grifos meus):

Um dos pontos mais polêmicos do terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) é a regulamentação do Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), prevista no Artigo 153 da Constituição Federal, que recebe grande oposição dentro do Congresso. No atual clima político, a medida dificilmente seria aprovada. […]

Segundo ele [Antônio Augusto de Queiroz, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap)], quem defende a reforma tributária "são os parlamentares empresários ou a serviço de empresários, que não estão de acordo com essa ideia de progressividade conforme a capacidade contributiva, pelo contrário, querem desonerar alguns setores".

A proposta de regulamentação do imposto foi arquivada hoje. Aparentemente os parlamentares estão desafiando o que já estava previsto na CF88, como lembrado acima:

Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre:

[…]

VII - grandes fortunas, nos termos de lei complementar.

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O mais curioso é a justificativa tucana para barrar o imposto (grifo meu):

[…] o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) se posicionou contra a criação do imposto por considerar a carga tributária brasileira já muito alta. “O PSDB é radicalmente contra o aumento de carga tributária, e a sociedade não tolera mais qualquer tipo de aumento de tributação”, afirmou o senador.

A proposta era de uma alíquota de apenas 1% para fortunas superiores a R$ 10 milhões. Realmente é muito injusto taxar estes pobrezinhos cujo patrimônio é de apenas dez milhões.

"Social-democracia brasileira".

reação a tafuri, anos 80, eua [1]

No início dos anos 80 um grupo de acadêmicos estadunidenses, duplamente incomodados com a condição em que se encontrava a produção de teoria da arquitetura naquele momento naquele país resolveram chamar alguns estudiosos (como o crítico literário Fredric Jameson) para um evento. Estavam duplamente incomodados pois tanto o momento político era conservador (início da era Reagan) quanto o máximo que se produzia de teoria e história da arquitetura ou era a crítica sofisticada e de público limitado da revista oppositions ou abordagens ainda bastante operativas e de maior repercussão do tipo Curtis ou até mesmo Frampton. Incomodava sobretudo o fato do papel da ideologia ser ignorado no estudo da arquitetura. A escola de Veneza tafuriana (nascida já fazia pelo menos mais de uma década) ainda era algo por demais longínquo ou obscuro. Por mais que Tafuri fosse frequente contribuidor da revista oppositions, suas ideias ainda eram de algum modo inéditas nos EUA.

O simpósio se deu justamente no Instituto de Arquitetura e Estudos Urbanos da Nova Iorque (o mesmo da oppositions) e se chamou Revisions. No ano seguinte (1982) foi publicado o livro architecture criticism ideology, editado por Joan Ockman. Os textos referentes ao seminário são de Fredric Jameson, Demetri Porphyrios e Tomas Llorens. Há ainda comentários de Beyhan Karahan e Jon Schwarting, além de textos outros selecionados de Colquhoun e Tafuri. De uma forma geral, porém, trata-se de uma breve coletânea de análises e comentários sobre as ideias do italiano. Curiosamente havia naqueles textos um frescor ou um desejo de produzir teoria e crítica que não vejo hoje - pelo menos não na academia.

A introdução escrita por Mary McLeod apresenta o seguinte:

[…]

Twentieth-century architectural criticism and theory thus appeared to us as largely divorced from systematic ideological investigation. The naive utopianism of the modern movement, the social criticism of the sixties, the semiological analyses of the seventies, and contemporary eclectic approaches – all fail to examine architecture’s "real connection" to material processes. Although architecture of the all arts is most directly tied to economic and social conditions given both its scale of production and public use, the field contains almost no tradition outside the Soviet Union of Marxist criticism of Marxist avant-garde practice. During the thirties, when the United States art historians such as Meyer Schapiro and Clement Greenbert, strongly influenced by Marxist theory, sought to reveal the ideological nature of painting and sculpture, no equivalent socially based criticism emerged in architecture. Even the Frankfurt School largely ignored architecture. There exists no Marxist study devoted to architecture comparable in scope and quality to Lukács’s investigations of the novel or Adorno’s analysis of music. Only recently, in Italy, can we see a historical, materialist criticism beginning to develop.[…]

The following papers will address these emergent positions. […]

A synthetic position can hardly be defined from such divergent approaches. It is our hope only that these papers will help to open discussion concerning the nature of architecture and ideology. With Fredric Jameson, in The Political Unconscious, we wish to continue to ask:

How is it possible for a cultural text that fulfills a demonstrably ideological function, as a hegemonic work whose formal categories as well as its content secure the legitimation of this or that form of class domination — how is it possible for such a text to embody a properly utopian impulse, or to resonate a universal value inconsistent with the narrower limits of class privilege that inform its more immediate ideological vocation?

This question, in face of a highly conservative political and cultural climate, appears to us, as practicing architects and critics, central to our own endeavours.

todos os grifos são meus

McLEOD, Mary. "Introduction" in OCKMAN (org.). Architecture Criticism Ideology. Nova Jérsei: Princeton Architectural Press,  1985

Parece-me que as condições políticas — clima cultural e político altamente conservador — são similares no Brasil atual. Vinte anos depois, ainda precisamos fazer teoria.

gentrificação 2

Descobri aqui: A Pollyana da Vila Madalena.

Podem me chamar de ingênuo ou até desinformado, mas considero que o cenário retocado, limpo, do centro de São Paulo apresentado em ‘Tempos Modernos’, a nova novela da Globo, está muito longe do real – mas tem tudo para ser o nosso futuro. Dimenstein.

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Curiosamente a novela acontece justamente em simultâneo a isto:

Prefeitura lança programa de revitalização imobiliária do Centro de SP

[…] As novas moradias deverão ser destinadas a famílias com renda mensal de até 10 salários mínimos e deverão custar entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil o metro quadrado […]

Porém, onde se lê "com renda mensal de até", leia-se "com renda mensal ao redor de" ou mesmo "de no mínimo de".

gentrificação

Deixando de lado a discussão do mérito dos albergues:

"O governo fecha os albergues centrais e diz para irmos para outros na periferia", relata Cícero Morais. "Quando me tiraram do Glicério, me mandaram para a zona leste." Morais afirma que os moradores de rua não quiseram ficar na periferia porque lá a infraestrutura é falha. "A segurança é ruim, não tem atendimento de saúde e falta lugar para vender lixo ou papelão."

fonte: Kassab fecha albergues e lota ruas, Estadão, 04.02.2010 (grifos meus)

Kassab tira a população em situação de rua do Centro e sugere que ela vá se afogar na periferia.

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Não sei se a gestão demotucana é incompetente ou burra mesmo, levando em conta seus objetivos. Se a intenção dela era tirar a população de rua do centro para torná-lo mais "bonito" aos olhos das classes médias e elites, o que ela conseguiu foi o contrário: todos agora se queixam da paisagem marcada pela pobreza. Irritou até mesmo a tucaníssima Associação Paulista Viva:

[…] diretora da Associação Paulista Viva, Marli Lemos. "Depois que encerraram os serviços dos albergues, apareceu um monte de morador de rua por aqui", reclama. "Regiões onde não havia tantos mendigos, como a Alameda Santos e o vão do Masp, agora estão lotadas."

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Kassab é a bucha de canhão perfeita para Serra.

vivendo com menos de R$ 5 mil por mês

Após as recentes declarações do atual presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Antônio Carlos Rodrigues (PR), de que não é possível viver com menos de R$ 5 000,00 por mês, podem-se tomar algumas considerações:

  1. Os membros das elites travestidos de vereadores demonstram que não consideram governar para iguais ou para cidadãos autônomos e emancipados, mas para algum outro sujeito. Heteronomia das mais violentas. Isto ajuda a explicar porque demos e tucanos preferem deixar pessoas embaixo d’água ao invés de carros. Afinal, tais vereadores são os homens bons da nação… (não custa lembrar que as câmaras municipais são a mais antiga instância de representação política no Brasil e, como não poderia deixar de ser, continuam quatrocentonas e elitistas).
  2. O governo, enfim, reconhece que os sistemas municipais de saúde, educação e bem-estar social de um modo geral são falhos e insuficientes (Com R$ 5.000 por mês eu não teria nem conseguido estudar meus filhos, teria dito ACR). Ainda assim, a solução sugerida por eles parece ser destinar verbas à alta burocracia e não às bases. Muito justo, afinal, os homens bons precisam de mais de 5 mil por mês pois eles têm direito natural às redes privadas. No fundo, é bom mesmo que permaneçam na privada.
  3. E, finalmente, a gestão demo-tucana reconhece que seu projeto de Estado é usá-lo para tirar dos pobres e dar aos ricos.
O desastre tucano só tende a piorar quando Serra assumir a presidência.

tia carmela avisou

Mas neste caso, sem anel de doutor.

Depois disto e disto, é preciso lembrar disto para não dizerem que Tia Carmela não avisou a respeito do desastre tucano: serra vai perder.

O Zezinho sempre foi meio supersticioso. Desde criança, na Móoca, tinha suas manias: antes de jogar futebol ele dava uns croques na cabeça no Reinaldinho Cabeção. Quando o Reinaldinho reclamava, o Zezinho falava: é pra dar sorte; você quer que a gente perca? Também gostava de galhinhos de arruda. Quando ia espiar as meninas pela fechadura, ou quando tinha que colar na prova de Educação Moral e Cívica, sempre colocava um galhinho de arruda atrás da orelha…

fonte: http://byebyeserra.wordpress.com/2009/11/28/zeserra-garante-emprego-de-arruda-e-o-lanca-candidato-a-seu-vice/

[tfg] “volterrana abóbadas”, anúncio em revista nos anos 60

Referências para o TFG: pré-fabricação nos anos 60. Achei o anúncio abaixo por acaso, folheando antigas revistas na biblioteca. Na época a madeira era ainda tão barata que era mais econômico produzir lajes maciças que utilizar-se das então ainda jovens alternativas pré-fabricadas.

Reprodução de anúncio de lajes pré-moldadas nos anos 60

Volterrana Abóbadas

- sistema tradicional Volterrana favorecido pelas vigas curvas

- Facilidade de montagem

- Simples impermeabilização

- Economia de tempo na execução de coberturas

- Riqueza e variedade de soluções plásticas

- Mais econômicas que as estruturas metálicas, melhor isolamento térmico e dispensam conservação

- Aplicações em: indústrias, igrejas, ginásios esportivos, escolas, residências, abrigos para carros, etc.

urbanismo espontâneo

O verdadeiro "quadrado mágico".

São Paulo, SP. Bairro de Itaquera, próximo ao Parque do Carmo. Coordenadas: 23.573922, -46.479496

quadrado mágico

John Turner (que está longe de ser uma das minhas leituras preferidas…) iria delirar. Eu também, contudo, achei o máximo esta apropriação popular do espaço.