repost: sobre destruir a memória

Originalmente publicado em http://stoa.usp.br/gaf/weblog/41391.html no dia 24 de janeiro de 2009.

Postado por gabriel fernandes

A gestão Serra-Kassab, ora em curso em São Paulo, é reconhecidamente higienista, elitista e contrária aos interesses democráticos. Apresenta uma política urbana para a região central também reconhecidamente segregacionista, expulsando a população pobre e promovendo gentrificação.

O movimento mais recente da gestão demo-tucana no sentido de tornar a região central um espaço menos popular e mais elitista se reflete no projeto de demolição dos edifícios São Vito e Mercúrio.

 

direito à memória

Um discurso muito comum na história da cidade é o da necessidade do constante "demolir para reconstruir". O discurso é tão forte que se encontra até mesmo no clássico São Paulo - Três cidades em um século, do professor Benedito Lima de Toledo, livro que consagrou a metáfora do palimpsesto: a cidade é como os antigos pergaminhos que raspavam-se (ou seja, destruía-se o conteúdo original) para permitir novas redações. De fato, esta condição "palimpsestítica" é parte crucial do caráter da cidade: sobre o antigo belvedere do Trianon construiu-se o mais belo edifício da cidade, sobre os escombros do Palacete de Conde Prates construiu-se o edifício de mesmo nome, sobre o sítio do antigo Palácio Santa Helena configurou-se a Praça da Sé e sobre o antigo Viaduto do Chá em estrutura metálica construiu-se o atual em concreto armado.

Até mesmo sobre o presumível sítio do antigo e há muito perdido Páteo do Colégio construiu-se o edifício pseudo-colonial que lá está e que todos pensam que é o local onde teria pisado o padre José de Anchieta. Nem mesmo o patrimônio construído da Universidade de São Paulo escapa desta condição: das antigas Arcadas do século XVIII sobrou pouco, tendo sido o edifício da Faculdade de Direito do Largo São Francisco construído nos anos 1930 por Ricardo Severo em estilo neocolonial.

Tudo isto é parte da história mas está longe de ser justificativa para um processo semelhante agora, em 2009. Se há idéias fora de lugar, há também aquelas fora de tempo: não faz sentido recorrer a fatos distantes da história para justificar atitudes de caráter gentrificador hoje.

 

"Comemorar" significa "relembrar junto". E lembrar significa resistir. Apagar a memória de um povo é o primeiro passo para acabar com a resistência deste povo. O que será "comemorado" pela população da cidade quando da demolição dos dois edifícios - São Vito e Mercúrio? No máximo, a sensação de que o passado se repete de forma distorcida: destrói-se algo para construir um processo de expulsão da população pobre do centro. Hausmann está contente na sua sepultura, relembrado que é pelo atual prefeito. Com uma diferença: apesar da violência social que empreendeu em Paris, Hausmann (um homem do século XIX) construiu a Paris que conhecemos hoje. Bem ou mal, tinha um projeto de cidade. A gestão Kassab, com a demolição dos edifícios, apresenta apenas um projeto precário de segregação sócio-espacial. Idéias fora de lugar e fora de tempo.

Surgem na imprensa menções a uma suposta falta de vocação residencial para aquela região - a das imediações do Parque D. Pedro II e da Zona Cerealista. Nada mais longe da verdade: uma rápida caminhada no local mostrará o contrário. Era uma das regiões mais valorizadas da cidade nos anos 30, certamente menos elitizada que Campos Elíseos e Higienópolis. Tratava-se afinal do "Central Park" tupiniquim. E também sempre foi popular, dada a proximidade com o Brás.

Tornou-se efetivamente um espaço do povo, democrático, com os projetos dos anos 50. O Edifício São Vito é do escritório Zarzur-Kogan e é um dos melhores exemplares de um tipo de empreendimento comum naquele período: grandes conjuntos com centenas de apartamentos de um dormitório ("kitchenetes"). O Edifício Montreal, de Oscar Niemeyer (pouco conhecido mas fundamental na configuração do cenário urbano de seu entorno, dada a linda implantação) é outro desta categoria, igualmente importante na configuração da paisagem paulistana. Do São Vito, porém, poucos falam, apesar da importância para a história da arquitetura. Do escritório de Zarzur-Kogan também saiu o Mirante do Vale. Todo este contexto não torna o edifício passível de proteção legal? Democracias mais maduras reconhecem o direito à memória de suas populações. São Paulo, hoje, está apagando sua memória.

Vejam só: até o escritório responsável pelo projeto do São Vito é um símbolo de tolerância, respeito e concórdia, visto que trata-se de uma frutífera e interessante sociedade entre um árabe e um judeu.

O edifício será demolido para que no local surja uma praça a fim de estabelecer uma ligação visual entre o Mercadão e o Palácio das Indústrias. Além de se tratar de invencionice histórica, tecnicamente a justificativa não se sustenta. O que impede a relação visual entre Mercadão e Palácio é o Viaduto Diário Popular (foto), não o conjunto São Vito/Mercúrio! A demolição do Viaduto, inclusive, já havia sido prevista na gestão Erundina, com o projeto de Lina Bo Bardi para a sede da prefeitura - algo que a oposição, da qual fazia parte o PFL, naquele momento, impediu.

Não custa também lembrar do projeto de Roberto Loeb re reabilitação do edifício, que havia sido considerado mais barato que a demolição, na perspectiva de promover habitação social no Centro. O projeto foi rasgado no primeiro dia da gestão Serra-Kassab. Alega-se que o custo por unidade será mais caro que uma unidade típica de HIS: por que não, então, promover também HMP no edifício? É realmente preciso demoli-lo?

A tal "praça" a ser construída no sítio do São Vito/Mercúrio também é absolutamente questionável do ponto de vista orçamentário: será a praça mais cara da história, visto que em seu custo entra a demolição, a remoção dos escombros, e a execução do projeto paisagístico. Duvido que qualquer outro espaço verde de São Paulo apresente um metro quadrado tão caro quanto o que terá esta praça. Em uma cidade com tanta demanda habitacional, demolir-se-á o edifício para produzir um espaço livre elitista e "antipobre" (a ser repleto de "bancos antimendigo", provavelmente).

A tal "praça" também é um absurdo do ponto de vista teórico: uma praça se define pelo vazio. O vazio só pode ser definido pelo cheio ao seu redor. Ou seja: a tal "praça pós-São Vito" será um vazio… rodeado de vazio. Caso se deseje integrar o espaço ao parque, porém, cabe a pergunta: por que o projeto de Fernando Chacel para ele foi interrompido no primeiro dia de mandato da gestão Serra-Kassab?

Não se pode combater a degradação urbana sem vida urbana (quem diz isto não é nenhum "esquerdista", mas uma pacata dona-de-casa chamada Jane Jacobs). Não se pode preservar o patrimônio sem dar-lhe um uso. A prefeitura pretende afastar vida urbana e frequentadores para o Parque Dom Pedro II. Afinal, frequentadores pobres não são desejáveis, na opinião da gestão Serra-Kassab.

protesto

Tudo isto é esquizofrênico: nada faz sentido. A demolição não faz sentido. As justificativas da Emurb, da Sempla, de toda a prefeitura: nenhuma delas faz sentido. Não há desenho que se sustente neste contexto.

Contra este psicodrama violento promovido pela prefeitura fascista de São Paulo, os cidadãos protestarão amanhã, dia 25.01.2009, dia de aniversário da cidade. "Comemorar", mais uma vez, significa "lembrar junto". E lembrar é resistir.

Sugerido por organizações diversas, ocorrerá amanhã um ato contra a demolição dos Edifícios Mercúrio e São Vito e por destinação social à habitação no Centro da cidade.

o linque para a chamada ao ato é http://www.centrovivo.org/node/1069

Do sítio do Fórum Centro Vivo:

A PREFEITURA DE SÃO PAULO QUER DEMOLIR 768 APARTAMENTOS!

DÁ PARA ACREDITAR NISSO?!

25 DE JANEIRO DE 2009
9H - PRAÇA DA SÉ
ANIVERSÁRIO DA CIDADE

outros blogues sobre o mesmo assunto

leituras sugeridas

  • CHAUÍ, Marilena; Cidadania cultural: O direito à cultura; São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2006
  • __; "Cultura política e política cultural" in Revista Estudos Avançados, vol 9, n. 23.
  • __; "Política cultural, cultura política e patrimônio histórico" in O direito à memória: Patrimônio histórico e cidadania. São Paulo: DPH-SMC-PMSP, 1992.
  • BONDUKI, Nabil; Origens da habitação social no Brasil: arquitetura moderna e a lei do inquilinato; São Paulo: Estação Liberdade, 1998.
  • KARA-JOSÉ, Beatriz; Políticas culturais e negócios urbanos: a instrumentalização da cultura na revitalização do centro de São Paulo (1975-2000); São Paulo: Annablume, 2007

 

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