A revista ou… era editada por um grupo de estudantes da fauusp no início dos anos 70. É notável pela atualidade dos temas que discutía: já naqueles anos publicava textos de Benjamin, Lefebvre, Paul Singer, Roberto Segre, entre outros autores pouco lidos naquele contexto universitário sob AI-5.
Seguem imagens. [destaque para o texto de rodrigo lefévre: algumas considerações continuam válidas 40 anos depois]
Linda obra da equipe da arquiteta Lina Bo Bardi em Salvador. Sem dúvidas o arquiteto mais inspirador do século xx. Seguem algumas imagens para registro pessoal.
Um dos aspectos da Flagelação de Urbino, de Piero della Francesca - obra produzida entre 1444 e 1469 e parte do acervo da Galleria nazionale delle Marche, em Urbino - que chamam a atenção à primeira vista é a baixa estatura do observador: a linha do horizonte parece localizar-se bem abaixo dos demais personagens que compõem o quadro. Por curiosidade, tentei encontrar o ponto de fuga e ele caiu não na figura de Cristo (como era comum em outras obras do Renascimento), mas no soldado (logo ao lado da coluna que divide o episódio em duas cenas aparentemente desconexas).
Trata-se de obra polêmica, com variadas interpretações publicadas ao longo da história. O artigo na Wikipédia dá um resumo superficial a respeito de sua problemática: por exemplo, já se especulou mesmo que não se trata de cena da Paixão, mas do pesadelo de São Jerônimo.
PS: erro meu. As linhas do piso deixam claro que o desenho aí em cima está errado. Na verdade, o ponto de fuga está entre o soldado e a coluna (praticamente no eixo vertical da imagem, como a maioria das composições em perspectiva do período). A construção mais correta vai abaixo.
A parede, em Siza Vieira, não é um obstáculo à luz, mas sim um espaço de contemplação em que a claridade exterior não se detém na superfície. Temos a ilusão de que os materiais se tornaram porosos à luz, de que o olhar vai penetrar a parede maciça e reunir, em uma mesma consciência estética e emocional, o que está fora e o que está dentro. Aqui, a opacidade torna-se transparência. Só um génio seria capaz de fundir tão harmoniosamente estes dois irredutíveis contrários. Siza Vieira é esse taumaturgo.
No último fim-de-semana toda a internet comentou a respeito do filme Home, produzido pelo fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand (sítio oficial no youtube: http://www.youtube.com/homeproject). Mais que uma tentativa de alerta a respeito de mudanças climáticas globais, o filme evidentemente é uma peça de propaganda dos grandes grupos empresariais internacionais que o financiaram. O filme está hospedado oficialmente no Youtube, mas não há possibilidade de incorporá-lo: apesar da deliberada intenção do autor de torná-lo um filme "aberto", não se cogitou utilizar uma licença livre (como a Creative Commons).
Ora: os mesmos grupos que são protagonistas no conjunto de agentes responsáveis pela exploração intensa de recursos naturais produzem, neste momento, um documentário que tenta alertar o mundo de que ele possui apenas 10 anos para reverter o ataque humano àqueles finitos recursos. Curiosamente, empresas como Gucci, Fnac, Puma, Yves Saint Laurent, entre outras, estão entre as principais patrocinadoras do filme. Justamente as principais marcas presentes na atual sociedade do consumo - justamente aquelas carnalmente ligadas a uma cultura de consumo irresponsável, violentamente demandante de recursos e de processos industriais - são as patrocinadoras deste documentário didaticamente narrado pela voz angelical e professoral da celebridade estadunidense Glenn Close.
Trata-se quase de um filme ingênuo. Só não é ingênuo considerando-se sua relação com o mesmo capital que produziu a atual crise de recursos naturais. No entanto, parta-se para uma análise do filme em si: assiste-se a uma sucessão - excessivamente linear - de imagens deliberadamente arranjadas com o fim de sugerir em primeiro lugar uma ligação entre a agropecuária contemporânea com o desastre ambiental e com a sociedade do petróleo (tal relação está correta, mas é curioso como pulam-se 200 anos de Revolução Industrial e como ignoram-se as alternativas de agricultura… mas esta discussão não cabe agora). A voz amaciante de Glenn Close é usada sobre belas imagens de paisagens naturais e modificadas pelo homem. No entanto, por mais impactantes que sejam as imagens, a música parece artificial, desarticulada, a narração parece intrusiva. Esteticamente, parece que há elementos que não conversam. Melhor dizendo: parece que os diferentes elementos do filme são forçosamente colocados uns junto aos outro.
A sensação de "já vi esse filme antes" tem motivo. O filme parece, de fato, uma cópia piorada e deturpada dos filmes da trilogia Qatsi, de Godfrey Reggio, especialmente o primeiro, Koyaanisqatsi. Tudo o que há de ingênuo ou forçoso em Home parece ter sido enfrentado de forma mais aprofundada em Koyaanisqatsi. Com uma ressalva: Koyaanisqatsi é de 1982. Home chegou piorado com um atraso de 17 anos. Na trilogia Qatsi não há voz: não se procura elaborar uma forçosa e intrusiva tradução "didática" da intensa relação entre imagem e música que os filme sugerem. A relação entre os filmes já foi notada, aliás.
Koyaanisqatsi é em tudo melhor que Home, mesmo quando não cabem comparações. Mesmo que fruto do mundinho Hollywood (visto ter sido produzido por Francis Ford Coppolla), Koyaanisqatsi é mais sincero, mais autêntico - ainda mais quando se explicita como ilusão cinematográfica.
O pior, porém, é o que segue: o lançamento global de Home foi tratado como um grande evento de mídia. No mesmo dia, foi publicado no Youtube, lançado em milhares de salas de cinema, em DVD e em Blu-ray. Para um filme que tenta, pelo menos a priori, alertar a respeito das mudanças climáticas, não parece fazer a sua parte, visto que ele estimula justamente o consumo.
As imagens acima são famosas representações da cidade ideal renascentista. Como se sabe, entre as preocupações dos tratadistas do Renascimento, estava o da procura de uma perfeita definição da ideia de cidade - uma definição que reunisse em si todas as virtudes da cidade, um modelo que sendo ideal nunca poderia ser realizado mas ao qual tentar-se-ia aproximar-se por meio de experimentos reais. A primeira imagem é atribuída a Piero della Francesca e acredita-se que tenha sido produzida por volta de 1460. A autoria da segunda imagem é desconhecida.
A imagem abaixo foi retirada deste blogue. Trata-se da Praça Kim Il-Sung, em Pyongyang, na Coreia do Norte, um enorme espaço urbano com cerca de sete hectares. O que é desconcertante não é tanto a curiosa semelhança entre as pinturas e a praça coreana, nem o fato de tal praça ser construção recente: na imagem anônima renascentista, o que se vê são algumas isoladas e esparsas figuras a circularem na cidade sem vida, algumas até mesmo amparadas por muletas, em um decadentismo indiferente à beleza fria e clássica do espaço urbano. Na praça nortecoreana parece ocorrer o mesmo.
Mrs Dalloway, o mais conhecido romance da escritora modernista inglesa Virginia Woolf, não é para ser lido apenas uma vez. A miríade de camadas de interpretação da obra literária enriquece cada nova leitura, fazendo transparecer formas, ritmos e sentidos que passaram desapercebidos antes. No entanto, algo que chama a atenção desde as primeiras páginas e as primeiras leituras é o papel que a cidade de Londres estabelece no desenvolvimento da trama: mais que um cenário, Londres se transforma em uma espécie de personagem a brincar e a dialogar com a memória e com os sentimentos dos protagonistas, mesmo que tais memórias sejam de lugares que nada tem a ver com a cidade. A maestria com que Woolf se utiliza do fluxo de consciência - técnica "inventada" por ela e por seus pares do grupo Bloomsbury - é especialmente fascinante quando ela apresenta seus personagens caminhando pela cidade e redescobrindo memórias, tempos e lugares à medida em que relacionam-se com a paisagem a seu redor. O estilo da escritora também se revela envolvente, sufocante: por vezes, uma sucessão de frases longas, com várias sentenças em um mesmo parágrafo são interrompidas por uma frase curta e certeira no parágrafo seguinte. Um turbilhão de pensamentos e conexões de sentidos diversos encontrando uma dúvida ou uma exclamação que os desconstrói ou os reafirma.
No famoso filme As horas a relação entre Woolf e o mundo moderno cosmopolita são relembrados: sofrendo de depressão e problemas psiquiátricos (por duas vezes a escritora tentou se suicidar antes de dar cabo de sua vida nos anos 40), ela e o marido instalaram-se em uma casa suburbana para "descansar", por ordens médicas, fato que era detestado por ela. No filme, a personagem interpretada por Nicole Kidman tenta desesperadamente pegar um trem para visitar a cidade. A autoridade pedante e ignorante dos médicos do período - para quem a psicanálise ainda era uma novidade distante - também são abordados no romance por meio da história paralela de Septimus Warren Smith, um londrino de classe média que acaba por suicidar-se (defenestrando-se, assim como Virginia tentou certa vez, quando sofria de alucinações).
Logo nas primeiras páginas o papel de Londres é evocado nos seguintes parágrafos:
For having lived in Westminster—how many years now? over twenty,— one feels even in the midst of the traffic, or waking at night, Clarissa was positive, a particular hush, or solemnity; an indescribable pause; a suspense (but that might be her heart, affected, they said, by influenza) before Big Ben strikes. There! Out it boomed. First a warning, musical; then the hour, irrevocable. The leaden circles dissolved in the air. Such fools we are, she thought, crossing Victoria Street. For Heaven only knows why one loves it so, how one sees it so, making it up, building it round one, tumbling it, creating it every moment afresh; but the veriest frumps, the most dejected of miseries sitting on doorsteps (drink their downfall) do the same; can’t be dealt with, she felt positive, by Acts of Parliament for that very reason: they love life. In people’s eyes, in the swing, tramp, and trudge; in the bellow and the uproar; the carriages, motor cars, omnibuses, vans, sandwich men shuffling and swinging; brass bands; barrel organs; in the triumph and the jingle and the strange high singing of some aeroplane overhead was what she loved; life; London; this moment of June.
For it was the middle of June.(…)
Nos parágrafos seguintes é interessante ver como outros personagens se relacionam com a cidade, como Peter Walsh (recém-chegado de um longo período na Índia), Rezia Smith (moça italiana, casada com Septmus e sentindo-se efetivamente uma estrangeira naquela grande cidade cosmopolita) e o próprio Septimus. Claro está que o romance não se limita a isto - e interpretá-lo apenas desta maneira seria inconsequente - mas é realmente envolvente e fascinante a forma como o ambiente urbano se conecta ao fluxo de pensamento dos personagens: ora de forma fugidia, fluida, ora de forma impactante.